Mosteiro abandonado de Seiça

Mosteiro de Seiça, vista lateral

Mosteiro de Seiça, vista lateral

No ultimo dia das minhas férias, fomos dar uma volta nas proximidades da casa familiar, de carro. O meu pai estava à procura de uma festa de aldeia não muito longe, que um colega de trabalho lhe tinha indicado. Qual não foi o nosso espanto, após termos tomado uma estrada mais ou menos ao calhas, de descobrir… o que pode ver na foto.

Meu Deus, o que é isto? Mas é gigantesco! Aqui está o que nos dissemos, vendo este edifício imponente e misterioso, à beira de uma pequena estrada do campo, perdido no meio de nada. Parece uma igreja fantasma… e é quase o caso : é de facto o antigo Mosteiro de Seiça, um antigo mosteiro que existe à tempos imemoriais, de antes mesmo a fundação do reino de Portugal, em 1143. Seiça é uma localidade da freguesia de Paião, concelho da Figueira da Foz.

Tomo a decisão de ir ver de mais perto esta bela obra totalmente abandonada, apesar da noite esta a cair, altura propicia para que um lobisomem ou um fantasma venha devorar_me… 🙂

Mosteiro de Seiça (alguns dizem convento...)

Mosteiro de Seiça (alguns dizem convento…)

E é mesmo impressionante. Não se está à espera de ver isto aqui, a região de Paião é mais do estilo a estar cheia de pequenas igrejas, o mosteiro mais parecendo uma catedral. Pode-se ver, atrás, uma curiosa chaminé (com um ninho de cegonhas por cima…). Curioso, não é? Será que os monges tinham alguma actividade industrial? Afinal, não. Vamos ver um pouco mais da história de este monumento, para sabermos mais.

Prédios anexos e torre da fachada.

Prédios anexos e torre da fachada.

O fundador da Nação Portuguesa, Dom Afonso Henriques, filho de Henrique de Borgonha, teve a sorte de assistir à um milagre, perto de uma pequena capela, Nossa Senhora de Seiça. Para agradecer a Deus por este milagre, ele decide de construir um mosteiro em Seiça, dedicado à Virgem Maria. Uma vez acabado, o mosteiro entrou na ordem de Cister, e foi dado ao Mosteiro de Alcobaça por Dom Sancho I, filho do primeiro rei de Portugal, Dom Afonso Henriques.

Em 1348, o ano da terrível peste negra, o mosteiro sofreu bastante. 150 religiosos perderam a vida em dois meses.

Em 1513, o rei Dom Manuel faz restauros no mosteiro, que estava naquela altura em mau estado. Estes trabalhos fizeram do Mosteiro de Seiça um dos melhores da região, rica em grandes edifícios religiosos.

A fachada que podemos apreciar hoje foi remodelada no século XVIII, como podem testemunhar diversos elementos arquitecturais. Com o fim das ordens religiosas em 1834, o mosteiro foi vendido a privados, que o transformaram em fábrica para tratar o arroz, o que explica a chaminé. Todas as estátuas, objectos e outras peças importantes foram então retiradas, desaparecidas ou utilizadas em outras igrejas.

Fachada do Mosteiro de Seiça

Fachada do Mosteiro de Seiça

Aqui está a história. O Mosteiro hoje não tem função, abandonado, apesar de estar inserido numa região muito bonita. A zona é rica em arroz, e possui paisagens únicas e variadas, o que explica a criação de uma “Rota de Seiça” recentemente : é um percurso para se andar a pé, que se faz em algumas horas, durante 13 kms, com a capela da Nossa Senhora de Seiça logo ali ao lado (não pude entrar na capela, era demasiado tarde como se pode ver na foto… sim, é a lua que pode no céu, atrás da capela).

Capela de Seiça

Capela de Seiça

A capela é muito elegante, vê-se que foi renovada à pouco tempo. Era mais fácil do que o mosteiro, que seria muito mais caro a restaurar (nem sequer existe projecto, mas pelo menos a câmara da Figueira da Foz já adquiriu o mosteiro à alguns anos por 225 000 euros, o preço de um pequeno apartamento em Lisboa… sem comentários).

Capela de Seiça

Capela de Seiça

A capela é muito antiga, parece que foi criada no ano de 850 (nesta época, esta parte do território estava ocupada pelos Mouros, mas as populações cristãs, maioritárias, tinham a liberdade de culto). A capela que podemos ver actualmente é o fruto de uma reconstrução que data de 1602, e é a única com forma octogonal da península ibérica.

Tomando coragem (na realidade, nem por isso, nem sequer pensei se o mosteiro poderia desabar por cima de mim…), fui tirar umas fotos. Aproveitem bem, foi arriscando a minha vida que podem hoje ver estas fotografias (sim, exagero um pouco).

Buraco aberto no tecto

Buraco aberto no tecto

Isto é o que se pode ver, se olharmos para cima, uma vez passada a porta principal. Um enorme buraco, dando directamente para o céu, e as plantas que caem dele…

Tijolos de fábrica dentro do mosteiro

Tijolos de fábrica dentro do mosteiro

Olhem só um pouco o atentado que foi feito contra um tão belo monumento… Dividiram os volumes com simples tijolos. Como se pode chegar a isto? Por sua informação, o edifício não é considerado como sendo património histórico. Acho isso incrível!

Interior do mosteiro

Interior do mosteiro

Outra vista do interior

Outra vista do interior

Ruínas do mosteiro... ou da fábrica?

Ruínas do mosteiro… ou da fábrica?

Interior degradado

Interior degradado

O mosteiro conservou apesar de tudo as suas dimensões majestosas, os seus belos volumes. A vegetação está em todo o lado presente. Não resta praticamente nada do antigo claustro, que não pude explorar, a noite já tinha caído, o que explique as fotos de fraca qualidade, tiradas com flash.

Voltarei a este mosteiro, para ver melhor isto tudo, e compreender se, realmente, o que está a crescer em cima das torres, são oliveiras? Visto de baixo, parece mesmo árvores!

Na esperança que terão encontrado uma solução daqui até là, e que não seja tarde demais. Alguns falam em transformar o sitio em Pousada… é preciso não esquecer que estamos numa aldeia longe de grandes centros urbanos, muito calma, com uma pequena estrada ao lado e uma pequena linha de caminhos de ferro onde os comboios passam raramente.

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Um comentário para “Mosteiro abandonado de Seiça”

  1. José Rodrigues dit :

    Gostei muito do conteúdo do seu blog. Cheguei a este blog quando fazia uma pesquisa sobre doces conventuais. Não conhecia o Mosteiro de Seiça, mas numa próxima vez que vá a Portugal irei com certeza.

    Queria pedir-lhe um favor. Não se importa se eu usasse uma das fotografias contidas no blog (talvez uma das 3 primeiras) numa apresentação que vou fazer sobre cultura portuguesa e ainda a possibilidade de colocar no YouTube?

    Agradecendo a sua resposta, subscrevo-me atenciosamente
    José Rodrigues

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